A PÍLULA DA FELICIDADE - DEPRESSÃO OU TRISTEZA

REESCREVENDO O TEXTO


O HOMEM NÃO ACEITA MAIS FICAR TRISTE


Imagem Fonte: www.juraemprosaeverso.com.br


Em entrevista com uma das maiores autoridades brasileiras em depressão, o médico Miguel Chalub diz que, hoje qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. E que prefere-se recorrer aos remédios a encarar o sofrimento.

Esta entrevista cedida a Revista ISTOÉ em 26/5/2010 retrata claramente o que temos vivido em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que a depressão será a doença mais comum do mundo em 2030.

Em 2010, 121 milhões de pessoas já sofriam do problema, mas segundo o psiquiatra mineiro Miguel Chalub, 70 anos, há um certo exagero nessas contas. Ele defende que tanto os pacientes quanto os médicos estão confundindo tristeza com "depressão".

Não se pode mais ficar triste, entediado, porque isso é imediatamente transformado em depressão, disse em entrevista à ISTO É.

Professor das universidades Federal (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ele afirma que os psiquiatras são os que menos receitam antidepressivos porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a "tristeza normal e patológica". 

Mas o despreparo dos demais especialistas não seria o único motivo do que o médico chama de "medicalização da tristeza". Muitos profissionais se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. "Os laboratórios pagam passagem, almoços, dão brinde. Você sem perceber, começa a fazer esse jogo.

Uma das perguntas da entrevista feita pela ISTOÉ foi: Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?

Miguel Chalub respondeu é porque estão sendo computadas situações humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado em depressão.

É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das situações, numa entidade patológica.

A palavra depressão passou a ter dois sentidos: Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo.

A própria postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as costas. E havia também os sintomas físicos.

O aparelho digestivo não funcionava bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza.

Há situações em que, se não ficarmos tristes, é um problema - como quando se perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são humanas, como a tristeza.

Essa mudança aconteceu principalmente pela busca da felicidade. Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque, ai, justifica: "Eu não sou feliz" porque estou doente, não porque fiz opções erradas.

Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo à tendência de achar que o remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.

A diferença entre a tristeza normal da patológica é a intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa.

Por exemplo não existe um tempo estabelecido para a tristeza após a morte de um ente querido. O importante é que a tristeza vai diminuindo, se for assim, é normal. A pessoa tem que ir retomando sua vida. Os próprios mecanismos sociais ajudam nisso.

Como poderíamos então identificar os sintomas físicos ligados à depressão? Aperto no peito, dificuldade de se movimentar, a pessoa só quer ficar deitada, dificuldade de cuidar de si próprio, da higiene corporal. Na tristeza normal, pode acontecer isso por um ou dois dias, mas, depois, passa. Na patológica, fica nas entranhas.

A pergunta aqui é: O que causa a depressão?

Esse é um dos grandes mistérios da medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é conhecido, está ligado a uma substância chamada "SEROTONINA", mas o que o desencadeia, não sabemos.

Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito precoces, verdadeiras ou até  imaginárias - como a criança que fica aterrorizada achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na "INFÂNCIA".

Os acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente. Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito doloroso.

Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as pessoas não querem fazer, não querem mexer nas "FERIDAS" - então é melhor colocar um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.

Possivelmente você chegou até este ponto da leitura e tem perguntado: o que é felicidade, como posso ser feliz?

A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa: a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a definição de felicidade, não de saúde, pois felicidade é estar bem consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é ficar triste de vez em quando.

É possível dizer então que o antidepressivo é sempre necessário contra a depressão? O Dr Chalub diz que quando é depressão mesmo, tem que ter remédio.

Hoje há quem diga que a moda é ter um psiquiatra, não um analista. As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o isolamento, não buscar psiquiatras e remédios.

Em algum momento, isso pode ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode precisar de uma ajuda, mas para que a ensinem a enfrentar a situação.

Votuporanga, 02/11/2015
Edson Luis Alves dos Santos


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